O Envelhecimento e o “Ser Idoso”

“Nos olhos do jovem arde a chama. Nos olhos do velho brilha a luz”. (Victor Hugo)

 

Mudar a sociedade não é fácil, mas mudar a forma como tratamos as pessoas à nossa volta é algo que está inteiramente ao nosso alcance.

Na cultura oriental o idoso é considerado o membro da família que tem grande sabedoria e é merecedor de profundo respeito. Assim, é habitual que lhe sejam solicitados conselhos. O Idoso possui não somente uma soma de anos, mas também valores, experiências e sabedoria que podem guiar os mais jovens nos desafios e caminhos que a vida proporciona. No oriente é habitual dignificar o idoso até os seus últimos momentos.

E nós, o que aprendemos com os nossos? Servem-nos de conselheiros? Respeitamo-los como merecem? A nossa sociedade, pelo que podemos observar, tem outro olhar diante da terceira idade: são considerados improdutivos, no entanto a própria sociedade não lhes dá a hipótese de serem inseridos em atividade produtivas. E de tanto tornarem as suas vidas passivas, a falta de estimulação aumenta a inatividade assim como o desânimo e a solidão.

Lidamos com os mais velhos como se de pessoas completamente ultrapassadas se tratasse, sendo que muitas vezes somos nós que não lhes damos oportunidade de aprender o que de novo surge ao nível tecnológico, não os incentivamos, relegamo-los para um ultimo lugar esquecido lá pelos corredores de um lar, um hospital ou da própria habitação sem visita-los, sem deles cuidarmos.

Mas as mudanças de hábitos, de tecnologias, não podem existir em detrimento do respeito, dos bons costumes e dos sentimentos. Culpamos o nosso estilo de vida, a correria do dia-a-dia e os afazeres para ganhar a vida, e não olhamos para tamanha indiferença, por quem um dia nos gerou, criou, ensinou….

Hoje em dia fala-se muito do envelhecimento com qualidade de vida: prevenção de doenças, avanços nos tratamentos, mas no entanto ainda não existe medicação para curar o mal da solidão e do abandono que aflige uma parte significativa desta população.

Desde o ano de 2011, ano que que foi realizada a primeira edição da Operação Censos Sénior, têm sido sinalizados cada vez mais idosos a viverem sozinhos e/ou isolados ou em situações de vulnerabilidade.

No entanto todos nós temos a noção do pouco ainda que se aposta no nosso país num envelhecimento com qualidade. Esta é uma questão cultural. E é mais do que chegada hora de educar-nos e a nossos filhos. Mostrar-lhes que aquelas rugas não assinalam apenas dias e dias vividos, mas são as marcas dos trabalhos que tiveram para que hoje estivéssemos aqui em razoáveis condições de cultura, conforto e bem-estar.

Temos de compreender que as mãos que tremem, os passos demorados e a voz que falha, são sinais que mais do que abraçarem, precisam de ser abraçados. De que já perderam muitas pessoas queridas, que por isso a família talvez seja tudo aquilo que eles ainda têm.

Quando a família opta pelo internamento do idoso num lar, a sua esperança de vida decresce de forma significativa, por melhores que sejam as instalações e mesmo sendo cuidados por profissionais competentes.

No entanto, todos conhecemos situações em que os idosos permanecem nas suas habitações mas estão maior parte do tempo sozinhos, sujeitos a caírem, a trocarem a medicação, a terem como única companhia horas a fio a televisão. Em que aqui a habitual fase “ eu não ponho os meus pais num lar, nem pensar” não passa de uma mascara social. Há que ter consciência da realidade.

É difícil sensibilizar pessoas mas enquanto não chegamos a idosos podemos pensar como gostaríamos de ser tratados pelos nossos filhos na terceira idade. Não esquecendo que o nosso exemplo está sendo observado e será repetido por eles.

A Terceira Idade não é uma fase de conquista do afeto da família, mas sim uma fase para usufruir do mesmo. Ninguém é perfeito, a vida é um contínuo de aprendizagem e não chegamos a idosos sábios, chegamos mais amadurecidos. O lugar que hoje eles ocupam será um dia o nosso, e quanto imperfeitos também o fomos…

A dignidade na Terceira Idade não pode ser “pedinchada”, tem de ser um dado adquirido e inquestionável.

Foto: pesquisa Google

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